CURTA

Londres: um fim de ano entre estresse e amor



Nem todo o estresse britânico afetaria minha animação de estar em Londres de novo.

Tudo bem, os motoristas de ônibus e lojistas em São Paulo também são mau humorados (com razão), mas com os londrinos é diferente. A grosseria vem de pequenos momentos e gestos. Até no ano novo, a impaciência paira.

À 1h30 de primeiro de janeiro de 2019, no segundo andar de um ônibus noturno, conseguia ouvir um inglês puxado reclamando sobre os constantes desejos de bom ano. “Tá, tudo bem, é ano novo, não precisam falar happy new year para todo mundo que aparece na sua frente”. Eu discordo. Quanto mais happy new year, melhor. Lembro-me de quando, aos 13 anos, colocava a cabeça para fora do vidro do carro para gritar “feliz ano nooooovo”, enquanto voltávamos de onde estávamos comemorando. Ninguém deixava de responder com a mesma animação.

Ficamos mal acostumados aí no Brasil. Pegamos intimidade rápido - não que isso seja sempre algo positivo -, damos muitos sorrisos automáticos e adoramos uma boa festa. Podemos ser estressados, mas nunca com descaso ou indiferença. Muitas vezes, aliás, nos compadecemos do mau humor alheio.

Cidades grandes são estressantes, algumas mais que as outras, mas compensam por não deixarem a animação ir embora. Na Trafalgar Square, dezenas de pessoas se concentravam nas mágicas de um dupla colorida e divertida. Com vista para a London Eye, turistas desviavam de câmeras para não atrapalhar o registro alheio. Na Winter Wonderland do Hyde Park, pessoas paravam para observar os gritos de desconhecidos no movimento do brinquedo radical, até mesmo interagiam.

Os arredores da ponte Westminster estavam abarrotadas nesse final de ano, no estilo 25 de março em véspera de Natal. Londrinos deviam estar impacientes em meio a tantos turistas, mas esses visitantes, muitos deles brasileiros como eu, não eram fracos. Passavam destemidos na multidão e não perdiam as fotos clichês da região central da cidade, apesar de o icônico Big Ben estar mudo e encapuzado para reforma - será que até ele andava mau humorado?

Não deixei de fazer poses para a câmera, inspiradas nas imagens que havia pesquisado no Pinterest. Peguei uma fila aqui e outra ali. Experimentei a escassa gastronomia local e diferentes fast food. Gastei na cerveja do pub e tomei água da torneira para economizar. Comprei na Primark e me decepcionei com a qualidade. Voltei e comprei de novo. Fiquei com raiva de um moço aleatório e seu humor britânico ácido. Embraveci com o atendente que não fez questão de falar o preço mais devagar. Mas como da primeira vez, apaixonei-me pelas cores pastéis de Notting Hill, pela funcionalidade das linhas do Underground e pela magnitude da Tower Bridge.

Nenhum estresse britânico afetou minha felicidade de ter estado em Londres de novo.

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