CURTA

Degrau por degrau


A porta estreita de vidro fantasia era da casa de Luana Priscila, como informaram as três crianças sentadas na calçada. “Não tia, é essa mesmo, aquela não é da Luana, porque é da prima dela”, disse uma das meninas ao apontar para a amiga ao lado.

Na Vila Zat, em Pirituba, todos os moradores se conhecem. Mesmo sem saber ao certo quais das casinhas era a de Luana, não foi difícil encontrar. “É só perguntar no Bar da Socorro, ali em cima, que eles vão saber”, indicou a dona de uma das vendinhas. O Bar era simples e pequeno, ficava um pouco acima na subida íngreme e tinha seu nome escrito por tinta spray preta. Homens interromperam o jogo de sinuca para escutar a pergunta. “Ela tem três filhinhos pequenos e sei que mora ao lado da Miriam”, explicou a mulher que me apresentou à Luana e que prefere se identificar como Sofia. Os jogadores, então, sinalizaram onde poderia ser a moradia nova da moça.

Após palmas e um convite para um café da vizinha Miriam, Luana apareceu com seu traje de ginástica e cabelo e maquiagem impecáveis. Da porta, uma escada estreita levava à sala e ao quarto. As paredes verdes-limão alegravam o ambiente em sintonia à agitação de Vera Vitória, de dois anos, Tiago, cinco, e Júnior, seis, que comiam pão de forma com manteiga enquanto iam de lá para cá no pequeno espaço da casa. À pedido da mãe, foram brincar de bicicleta na rua com o Tio.

Com um celular de tela rachada na mão, Luana conta à Sofia que a pequena Vera quase caiu da escada por conta do aparelho eletrônico. “Eu mandei ela soltar o celular para se segurar, porque se não soltasse, ia cair. É melhor o celular quebrado do que a minha filha, né?”.

Luana, de 33 anos, é de Ilha Comprida, litoral paulista, e tem seis filhos. As outras três meninas estão com a mãe do primeiro marido, na cidade natal. Ela assegurou que não perdeu a guarda, mas foi sua opção deixá-las viver com a avó. Os pequenos vieram do matrimônio com Roberto, que durou oito anos até ela decidir terminar no começo deste ano.

“Ele dava porrada, me batia muito, me tirava sangue e me quebrou os dentes”, contou com os olhos um pouco molhados, enquanto tirava a dentadura da parte de baixo da boca. “Ele foi para o julgamento agora e eu falei que meus dentes já estavam moles”, continuou ao explicar que não queria vê-lo preso para não se sentir culpada. “Por mais que ele me bateu, eu sei que foi pelo uso da droga e da bebida, porque o crack misturado com álcool tira a pessoa de si”.

Em oito meses de relacionamento, o companheiro que se assemelhava a um príncipe se converteu na patrulha da sua cela privada. “No começo ele me tratava como uma princesa e cuidava, me sentia até segura, mas depois que assinamos o papel e casamos, ele se transformou. Começou com um ciúmes possessivo, eu não podia sair de casa. Tinham momentos que ele estava fumando, eu dizia que ia ao banheiro tomar banho, e ele me encostava na parede e me revistada como se fosse policial”.

“Nossa cama era aquela de madeira de antigamente, que era toda fechada até embaixo. Mas ele teimava que o amante estava escondido debaixo”, falava Luana em tom de voz um pouco mais alto para ultrapassar o som do forró que tocava em uma das casas ao lado. “Tudo era ‘ela tá com outro’. Se eu estava com a Miriam, era porque eu era sapatona e estávamos nos beijando”. Desta vez, foi interrompida por Vera Vitória que voltava da rua à porta para pedir que a mãe deixasse a entrada aberta. “A música tá atrapalhando a mãe conversar”.

Luana contava sua história com a mesma expressão de calmaria e tristeza no olhar, apesar da história violenta que narrava e da melodia alegra ao fundo.

“Ele batia nas crianças também?”

“Tanto eu quanto eles, e eu apanhava mais ainda porque iria defender eles e entrava na frente. Como eu estava protegendo, não tinha como soltar para me defender, aí que ele montava em mim e dava, você entendeu?”

Fiz que sim com a cabeça.

“Quando era só ele e a vó dele, ela ia para cima de mim para me agredir também.”

“Quantos anos ela tinha?”

“Ela tem uns 60 e poucos anos. Ela me segurava para me bater e dizia ‘eu apanhei do meu pai, ele me deu uma facada na perna, se eu aturei, por que você não pode?’”

“Eu comecei a ter síndrome do pânico, porque toda hora que ele chegava em casa eu não sabia se ele ia me bater, me beijar ou me matar. Contava as horas, quando via que estava escurecendo e ele iria chegar, meu coração acelerava”. Quando percebeu a doença, Luana procurou ajuda no hospital público que fica na Avenida Guilherme Cotching. “Tive depressão e não queria sair na rua, porque ele dizia que eu era feia, ridicula, sem dente, ninguém iria me querer e uma par de coisa”. Afastada da família, o psiquiatra a ajudou a optar por acabar o casamento. “Ou eu me amo, ou não”, repetiu as palavras que disse ao médico.

Certa vez, Roberto deslocou o braço do menino Tiago do lugar, na hora em que tentava separar o pai da mãe em uma das brigas. Quando Roberto foi buscar a avó, Luana se trancou no quarto com os filhos e só pôde sair de lá depois de afastar o marido com a ameaça de ligar para a polícia. Ao chegar do hospital com as crianças, o mais velho Júnior pediu à mãe: “vamos embora daqui, eu não quero mais ver o meu pai te batendo”. Neste dia, decidiram de vez que iriam para uma casinha perto da que está agora. Sofia que levou a televisão, o cobertor e utensílios de cozinha para o novo lugar.

No dia anterior à visita, Luana contou a Roberto que está namorando. “Dessa vez eu não gosto mais dele, então dei oportunidade para mim ser feliz de novo. Cheguei nele por telefone e falei ‘estou com outra pessoa’”. Jéfferson é conhecido pelas crianças como Tio. Ele se mudou com os quatro e pediu à Luana que ela o assumisse. “Ele [Jéfferson] pegou o telefone e disse ‘ela está comigo e agora tem um homem para cuidar dela’”. 

Depois das ameaças de morte de Roberto, Luana tentou acalmar a situação e explicou: “eles sabem muito bem que ele é o tio e você é o pai”. O ex-marido garantiu que abrirá um boletim de ocorrência contra Luana por tentativa de homicídio e abandono ao lar. “Até onde eu sei ele que me agredia”, afirmou indignada.

“Você chegou a ir à delegacia?”

“Não, porque se eu abrir outro boletim, ele vai preso na mesma hora, isso ficou claro no último julgamento.”

“Quando foi esse julgamento?”

“Mês passado, né?”, perguntou à Sofia. “Era de 2013, mas saiu a audiência um mês e meio para trás. Eu não iria suportar ele preso, até meus filhos disseram ‘mamãe, eu não quero meu pai na cadeia’.”

Enquanto Júnior pedia mais um pão com manteiga, Luana falava dos medos que começou a ter após contar para Roberto de seu novo relacionamento. “Ele falou que se ele me encontrar, vai pegar, me amarrar, me levar no quartinho da casa dele, me torturar e me decepar aos poucos”. Ainda que teve alta da psiquiatria, ela agora vive de calmantes. “Ele falou ‘ou você vai ser minha, ou de mais ninguém’”. 

O Tio assegurou que está lá para protegê-los caso Roberto descubra onde moram. “Aqui envolta todos já estão cientes, o Jéfferson já mostrou a foto dele para os irmãos do PCC e tudo”, disse Luana ao explicar que o namorado cresceu com os irmãos, mas seguiu o caminho da igreja. O casal descobriu que Roberto tem uma dívida com a organização por ter aprontado no Campinho do Satélite. 

Luana é executiva da Avon na região de Pirituba e tem o sonho de ser bióloga em Ilha Comprida. Confessou o desejo quando contou que sua mãe completou há pouco tempo sua primeira graduação, beirando os 60 anos. A mãe, que também sofreu violência doméstica quando Luana era pequena, foi morar nas ruas depois de deixar o marido e levou a filha para a casa do avô.

Miriam ficou brava por não termos parado para o café, e o Tio mostrou-se ainda com fôlego para cuidar dos três agitados. 

Na volta, Sofia comentou “ela já tinha me contato que o Tio deu em cima dela lá no seu primeiro dia na academia. Quando ela perguntou para os vizinhos, descobriu que ele mentia e tinha saído da cracolândia. Miriam contou que ele cheira. Aqui é rápido, vai de ódio ao amor em dois minutos”.

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