Ficção de um minuto

16:21


Maria e eu fazíamos o trajeto de trem na linha Esmeralda, como todos os dias. De segunda a sexta, ela me convencia a pegar o comboio em direção à Pinheiros e depois outro em direção a Osasco. Paramos em Pinheiros e, numa brincadeira, tentamos ser as últimas a sair do vagão. Não nos pergunte qual é a graça, não sabemos explicar, mas ela existe.

Quando descemos (não conseguimos ser as últimas), olhei um moço despojado de cabelo loiro escuro e mostrei à Maria. “Ele tem o problema do peito cabeludo”, sussurrou ela. Entramos os três. Na Cidade Universitaria, Maria desceu dizendo que levaria Anita no parque para eu conhecer. Não a cantora, mas sua cadela nova.

Para não pensar na prova do dia seguinte, abri a Netflix e coloquei no próximo episódio de Friends. Segurei algumas risadas e, quando ouvi a voz anunciando a estação em que deveria saltar, tirei os fones.

“É primeira vez que assiste Friends, ou já viu?”, perguntou o menino peludo, que, sem esperar minha resposta, continuou “eu já vi duas vezes, é minha série favorita”. Fiquei surpresa e só consegui soltar um sorriso enquanto dizia “é a primeira vez sim, mas gosto muito”.

Durante o breve momento em que a porta se abria, pensei em como Rachel, Phoebe e Monica tinham encontros descontraídos e espontâneos como esse. Com caras mais atraentes e roteiros bem pensados, eu sei, mas ainda assim, o menino do trem me fez acreditar que por sete temporadas havia assistido a uma realidade. Ou, eu que vivi uma ficção de um minuto.

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