​ Ele comprou um guarda-chuva

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Sentar na frente dele com uma garrafa de cerveja entre nós era novidade, ainda que esta cena parecesse uma reprise das dezenas outras do ano anterior. As novidades em si não eram muitas, nós éramos os mesmos jovens sem medo de tomar uma chuva.

Acontece que juntos, um ano atrás, éramos diferentes. Juntos, ele se recusava a comprar um guarda-chuva para os dias pluviosos, e dividíamos o meu bege de bolinhas pretas. Reclamar da água que nos atingia toda vez que saíamos virou uma coisa íntima nossa. Por meses, as gotas que escorriam da janela me lembravam das gotas de suor dele.

Até que parou de chover na nossa horta. Já havíamos colhido as plantações e não restou nenhuma. Entre nós, deu-se um espaço seco e sem esperança. Ele percebeu antes que eu pudesse me preparar para o temporal que viria. Toda a água dentro do meu corpo vazou pelos olhos e, quem ficou seca, fui eu. Hoje, as bolinhas pretas viraram estrelas brancas, e ele finalmente comprou um guarda-chuva.

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