Um encontro embrulhado

17:50


Meu estômago estava embrulhado como um papel de presente esquecido por três anos. Ele estava ao meu lado, preocupado, ainda que fosse só uma ressaca. Soube porque me olhava com os olhos atentos e sobrancelhas levantadas, como quem quer ser levado a sério. “Vai te fazer mal não comer nada”, ele disse.

A cada passo que dávamos, eu respirava fundo e tentava afastar a ânsia pela força do pensamento. Massageava minha testa com a ponta dos dedos, não porque acho que tenho poderes telepáticos (caso ele tenha pensado isso), mas porque também estava com dores fortes de cabeça. “Nunca mais vou beber”, eu disse.

Era nosso primeiro encontro desde o dia que nos conhecemos, dois meses atrás. Nos enrolamos em mensagens despreocupadas e problemas técnicos. 61 dias depois e ele estava lá, dividindo o fone de ouvido e fingindo gostar da minha seleção de músicas indie pop enquanto esperávamos o próximo trem. “Você tem bom gosto”, ele disse.

Em vez de ser a garota com borboletas no estômago, fui a garota com embrulhos no estômago. Culpei o balanço do metrô e escondi minha decepção comigo mesma. Ainda assim, não mudaria os minutos que observamos a Avenida pelo mirante até eu precisar sentar e os que rimos em silêncio da senhorinha perdida na videoinstalação da exposição. “Será melhor na próxima”, eu disse.

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