Amor de verão

17:47


Te conheci por volta das seis horas da tarde. Tu percebeu do outro banco da praça que eu não era dali e veio me perguntar se havia gostado da cidade até então. Confesso, achei que tu fosse mais um maluco que vendia pão de mel por dois reais e cinquenta centavos. O preço dessa capital com cara de interior era bom, mas já estava cansada de dizer "não" às pessoas que me abordavam. Apesar do estresse, cedi aos teus olhos azuis tão claros que quase se fundiam com o branco do tua esclera. Te disse que sim, havia amado o lugar, e completei te comparando a um cantor pop tão fofo quanto tu mas que me irrita com seu rosto perfeito demais.

Tu me disse teu nome, aquele que temi por tanto tempo, carregado de histórias de outro alguém. A diferença de uma letra entre os dois me trouxe alívio, por mais que não acredite em numerologia e que não faça diferença na hora de chamar. Acreditei, no fundo, que tu não era ele, porque teu sotaque era caipira e puxado demais. Outras coincidências apareceram e rimos delas, como se fossem uma pegadinha de um reality show qualquer de encontros de casais ideais. Tu sabe que é só por uma noite, mas eu ignoro o bilhete de embarque dobrado na parte da frente da mochila.

As luzes da festa a seguir me fizeram viajar no teu mundo. Eu não gostava de nenhuma daquelas músicas bregas e ainda assim cantava cada letra guardada - a maioria estava errada mas não me importei -. Gritamos para perguntar e responder questões bobas como "mora só você e sua mãe?", que no momento eram importantes demais para duas pessoas que só tinham um final de tarde e uma noite.

Duas horas de convivência, tu já fazia cócegas em mim e eu ria sem graça mas sem me preocupar com a risada desengonçada. Parecíamos a dupla com mais sintonia da região toda, e nem sabia qual era tua comida preferida. Até hoje imagino que seja purê de batata. Tu tem cara de quem gosta de purê. E de ser uma daquelas pessoas que só conseguem pegar no sono ao lado de outra, se tiver de concha, bem próximo.

O vento da madrugada das cinco da manhã, na barraca do cachorro-quente, era áspero e podia senti-lo rachar meus lábios logo menos. Mas tu me aqueceu com teu fogo da efemeridade, tu quis aproveitar de cada segundo dessas poucas horas. Mesmo no inverno de uma cidade gelada, tu e eu vivemos um amor de verão. Não sei se amor é a palavra certa, mas as duas juntas combinam e fazem sentido. Foi como tomar sorvete no inverno. Um sorvete saboroso, mas que tu percebe o gosto saindo por debaixo da língua em poucos minutos.

Você também poderá gostar

0 comentários