Você é uma corda bamba

21:57


Num dia desses me perdi no controle remoto e o tique de mudar de canal a cada segundo me levou ao Off, aquele em que 70% da grade é composta de surf, trilha sonora indie e pessoas bronzeadas. Passava a série Slackline, com aventureiros se equilibrando em uma espécie de corda. O programa não teria graça se não fosse o penhasco abaixo de seus pés. Sim, os doidos eram tipo trapezistas em montanhas. Eu já conhecia o esporte, mas nunca tinha visto dessa forma.

Algumas horas depois, ouvi "Sorte Que Cê Beija Bem", da Maiara e Maraisa - sertanejo é tipo meu dirty little secret -. Na parte em que cantam "Você é a corda bamba que eu aprendi a andar", entre vozes do público na versão ao vivo, entendi o significado do penhasco e da vontade de tê-lo logo ali, causando enjoo e náusea. É difícil acreditar que um programa de TV de esportes radicais pudesse completar tão bem uma música femineja.

Há alguns meses tento me equilibrar em você, minha corda bamba. Sempre soube que eu não levo o menor jeito para esportes, e pelo jeito isso também vale para os amores com adrenalina. Tentei de tudo: ir devagar em cada passo, ignorar o medo, inspirar e expirar como nossos pais ensinam, não pensar no ponto final da linha... mas você é instável, como se os ventos fortes da parte mais alta da montanha não te deixassem acalmar.

Em pouco tempo a corda perdeu sua força. A vastidão abaixo dos meus pés cansados passou a representar tudo, ou nada, que sentia quando você me balançava e quase me fazia cair. Deveria ter te encarado como uma brincadeira desde o início. Da primeira vez que tentei andar sobre seus desafios me machuquei, dessa vez, desisto de novo antes mesmo de alcançar o meio do caminho.

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