Do lado de lá da catraca

18:55


O moço bonito estava do lado de lá da catraca. Usava moletom verde claro com as mangas arregaçadas até a curva do cotovelo - costume que me irrita um pouco e que, com certeza, esgarça a peça de mais de R$ 100 -, calça bege e tênis marrom, tudo em uma certa sincronia. Logo, pensei eu, é um cara vaidoso, apesar da barba bem mal feita no intuito de parecer descolado. Imaginei se existiria uma diálogo que começasse com "até que hoje não está tão lotado, né?".

Debruçada na mulher à frente na tentativa de segurar o cabo amarelo, senti vergonha da posição descontável e pouco atraente. Troquei alguns olhares, mas sabia que meu cabelo em um coque despropositadamente mal feito piorava minha situação. Tentei limpar a remela dos olhos, enquanto me equilibrava em cada freada sem o apoio das mãos.

Sabia que nunca haveria uma conversa, mas, ainda assim, torci para que ele não descesse no ponto da estação de trem, onde a maioria das sardinhas do ônibus saltam. Deixei os passageiros passarem por mim e, quando o motorista deu partida novamente, não o encontrei. Claro. Deve ter pego o comboio para alguma zona distante de São Paulo.

Minha paixonite durou os quinze minutos do trânsito da Anhanguera. Pela primeira vez, não odiei os carros congestionados e não me arrependi de colocar a soneca de dez minutos no meu despertador. Agora, terei de me atrasar nos próximos dias para tentar encontrar o moço bonito mais uma vez.

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1 comentários

  1. Ahh que fofinho rs,acho que todo mundo passa por isso de encontrar alguém no meio do caminho e ficar trocando olhares rs,nunca tive coragem de falar nada,mas seu texto me fez recordar alguns desses momentos em que me encontrava na mesma situação da personagem rs
    Beijos ^.^
    Little Wonders

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