Uma paixão platônica

17:06


Cabelo meio cacheado e meio castanho, um metro e oitenta e pouco centímetros de altura e pinta de artista. Ele era a melhor parte do corredor gelado e sem graça que ligava as salas de aula. Apaixonava-me todas as quintas-feiras sem ao menos saber seu nome. Eu sei, a situação parece envolver uma adolescente que ainda se preocupa com o uniforme colorido do colégio, não uma garota com seus quase dezoito anos. Apeguei-me à minha única pista, uma blusa preta que ele usava repetidamente e que trazia a estampa de uma cafeteria famosa. 

O lado sociopata -e stalker- escondido no fundo do meu córtex pré-frontal veio à tona com a ideia de procurá-lo em redes sociais. Ué, se a geração milênio foi presenteada com a tecnologia, por que não usá-la para encontrar paixões platônicas? Senti-me como um Sherlock Holmes de R$ 1,99. Encontrei seu perfil no Facebook após vasculhar grupos que reunia bixos do seu curso. Confesso, levou algumas tentativas (que seriam em vão caso não me arriscasse). 

Esforcei-me para conquista-lo. Descobri seus hobbies (não eram poucos), manias, chatices, e a friendzone passou a me assombrar. Nossa amizade floresceu e era um lembrete de tudo que nunca seríamos, de que o platônico era irreversível. Era tipo querer muito um vestido novo, poder comprar, mas ele simplesmente não vestir bem, como se não te aceitasse. Ele me ganhava com apenas um pedaço de papel e uma caligrafia bonita. No final, foi ele quem escreveu a história e fez de mim sua personagem.

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