Ressaca de felicidade

21:35


Nestes últimos dias meu humor tem oscilado com mais frequência. Por exemplo, na última terça-feira, acordei com vontade de nunca ter saído daquele sonho bizarro, porque, por mais esquisito que fosse, seria melhor que meu dia. Já dentro do ônibus, a visão da janela suja com marcas antigas de chuva me lembrou a beleza distorcida da vida. Em questão de uma hora e meia, passei de rivotril a chá de camomila.

Isso me levou a um princípio de crise de identidade que se agravou com minhas características librianas. A saudade indevida do passado fez com que a autoestima e o orgulho fossem para o brejo. Junto com a certeza de todas as decisões tomadas a partir de 2010, por aí. A icônica frase de Sócrates me confortava, mesmo que não chegasse nem à unha de seu dedinho do pé.

Por muito pouco, a indecisão não causou a perda do dia mais marcante nos últimos oito meses. O medo da solidão era como areia movediça que me afundava em próprios pensamentos destrutivos. E o humor continuava a viajar da Argentina à Austrália em curtos intervalos.

Após estes tantos meses, a presença distante de um inglês moreno e emburrado me inundou de felicidade. Ou, pelo menos, algo próximo a isso. Num 9 de março, toda e qualquer nota cantada entrava no meu ouvido e preenchia cada espaço vazio. De repente, um filme bobo narrava uma história não original com final feliz em Londres. A trilha sonora de folk interpretada por voz rasgada dava um toque realidade, e a sensação se parecia mais e mais com a ilusão de embriaguez. Na manhã seguinte, acordei de ressaca. A tontura de plena alegria ainda estava presente em cada parte desidratada do meu corpo, e a rouquidão na garganta era a prova de que, na noite passada, havia ficado bêbada de tanto sorrir.

Agora, sei que as confusões e instabilidades, por mais difíceis que sejam, fazem com que acontecimentos bons se tornem peças raras na memória.

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