O vaqueiro peruano


Rua da Consolação e entrei em qualquer ônibus que ia via Rebouças. A pressa é sempre tanta que os seis números no visor eletrônico pouco importam. Pasme, nessas horas nem olho para os bancos ao redor à procura de um rosto bonito que me acorde do sono matinal do meio dia. Quando já estava no assento central da ultima fileira, a fisionomia de um homem vestindo chapéu e blusa de vaqueiro, bermuda acima do joelho e tênis da Nike rosa choque me despertou. O cabelo descolorido com mechas verdes-água estava oleoso e com aspecto sujo. Na boca, um microfone daqueles de cantores meio bregas que levam na cintura a pochete com a caixa de som.

Com um ukulele na mão, o cara de cerca de 25 anos jogava frases carregadas em um espanhol-americano aos passageiros. Presumi que a figura era peruana, não sei se ouvi a palavra Peru, porque o fone que eu usava ainda estava grudado no ouvido esquerdo, mas na minha cabeça a nacionalidade caiu bem. Imaginei como teria sido sua infância num vilarejo pequeno cercado por mato e gado, onde aquele sonoridade era típica e pouca esquisita.

O vaqueiro mexia a boca rápido demais em um talento bizarro que fazia sons de cavalgadas. Cloc cloc cloc entre palavras avulsas. Nunca havia ouvido tal estilo musical e não fiz questão de googar depois. O resto dos passageiros também não se importou e, depois do mini show, o artista solicitou as devidas palmas. Próximo à Faria Lima, deixei de prestar atenção naquela cena incomum. Não reparei se o homem havia pedido trocados no final, ou se apenas gostaria de ser reconhecido por sua musicalidade, ainda que por pessoas desinteressadas num ônibus qualquer que ia via Rebouças.

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