A identidade por trás do muro

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Atrás da Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, em um tapume de metal, o pixo “MRGN”, abreviação do sobrenome Morgana, se destaca. Iris, 20 anos, costuma deixar a sigla no Jaraguá, Zona Oeste, ou no centro, onde tem preferência. “A pixação no centro vale mais que 20 pixações na sua quebrada”. 

Em frente à Igreja, há o contraste da Galeria do Rock, cenário de tantos suicídios que acontecem na entrada da Avenida São João. Ao lado do cruzamento com a Rua Dom José Barros, Cripta Djan, pixador há 20 anos, transmite sua experiência no pixo em uma conversa descontraída entre seu x-burguer. “Você tem sua vida comum, mas no pixo você inventa um codinome, uma espécie de personagem”.

A pixadora Morgana estuda estética na Universidade Anhembi Morumbi. Com diversas tranças pequenas ao longo do cabelo, indo até a cintura, a dona do MRGN tem intenção de representar a cultura negra. Seu propósito na universidade é quebrar o tabu que gira em torno do significado de beleza. “Nosso conceito de normal é cabelinho bonitinho, maquiagenzinha, roupinha bonitinha, eu aposto que os esteticistas nunca vão enxergar a pixação como beleza”. Ao mesmo tempo em que defende seus pixos, não os considera arte. Para ela, “é um ato de protesto e anarquismo”. O fenômeno social é criticado duramente pela maioria dos habitantes da capital, que interpreta os escritos como sujeira, mas é olhado pelos praticantes como uma manifestação à invisibilidade perante à sociedade.

Cripta Djan se chama Djan Ivson Souza. O nome Cripta vem do grupo o qual faz parte. Há uma década, é líder da grife “Os mais fortes”, uma grande comunidade em tamanho nacional que engloba diversos grupos. Djan começou “seu rolê” em 1996. De Osasco, ele prefere não deixar seu pixo em vilas e locais residenciais. “Não acho legal pixar o bairro onde mora e lugares que não vão ter muita visibilidade, o centro é muito mais interessante”, esclarece. Cripta Djan menciona a famosa Avenida Paulista como um alvo constante dos pixadores e explica, “a Paulista não foi construída para nós, os jovens da periferia, porém, quando vamos lá e ocupamos um prédio, simbolicamente viramos dono dele”. Djan solta um sorriso ao dizer o quanto é legal ouvir os comentários “eu vi seu prédio ali”, demonstrando uma apropriação representativa.

A atividade em São Paulo já foi alvo de documentários com “Pixo”, de João Wainer, e “Pixadores”, do iraniano Amir Escandari, no qual se vê quatro jovens indo à 7ª Bienal de Berlim como convidados. No evento, os pixadores entram em confronto com a polícia por não concordarem em usar uma parede falsa e pintar o próprio prédio. Um dos homens a quase “ir em cana” -ele assume em expressão de alívio- é Djan. Produções como estas mostram uma perspectiva quase não notada sobre as letras, maioritariamente não legíveis, marcadas em tinta spray por toda a cidade. O universo cinematográfico, ao incluir obras como a do cineasta iraniano, se torna inclusivo e acessível às pessoas não familiarizadas com as linguagens audiovisuais, mas que se identificam com a realidade abordada. Escandari tinha a ideia de ficção na cabeça. “A gente se recusou a fazer algo fictício porque nós não somos atores”, ressaltou Djan.


Alguns pixos são comunicação aberta, como conta Morgana, que quem o lê, entende. Um exemplo são os “Fora Dilma” espalhados, ou agora “Fora Temer”. Ela comenta a existência de vários em Pirituba, perto da estação de mesmo nome da CPTM. Djan não concorda com a frase amplamente disseminada. “Isso é muito triste, quando vejo um pixador escrevendo ‘Fora Dilma’, não por ser um engajamento político na realidade, mas por estar reproduzindo um discurso da direita, raso e fácil”, critica.

Em pesquisas para descobrir o nascimento do termo “pichação” [com “ch” no dicionário, diferente do popular, com “x”] no português brasileiro, Djan descobriu uma matéria do jornal Folha de S. Paulo nos anos 1950. Nela, o jornal se refere “aos candidatos pichadores, que promoviam sua própria propaganda pichando seus nomes”, cita com ironia.

A comunicação fechada é de pixador para pixador, em que é preciso estudar a tipografia para entendê-la. Djan explica que existem duas escolas, a carioca e a paulista. O pixo Xarpi, do Rio de Janeiro, se identifica pelas letras se assemelharem a rubricas, manuscritos da Idade Média. O pixo Reto, de São Paulo, teve influência do punk, na estética grunge e suas letras retas, que vieram de capas de discos como da banda Iron Maiden.

“Para lutar contra a especulação imobiliária na cidade de São Paulo em defesa das nascentes e de recursos hídricos”, interrompe o candidato a vereador pelo PSOL Dorberto Carvalho, em seu pequeno automóvel motorizado e difícil de ser categorizado. Após alguns segundos, sem o som do megafone ao fundo, Djan explica como enxerga o pixo e seus adeptos. “No aspecto social da vida dele [pixador], dificilmente ele vai ter reconhecimento, e no pixo você consegue. É um movimento existencial, onde cada um está promovendo a sua existência através da arte e da transgressão”. Ao ser perguntado sobre a definição do pixo como arte, ele diz considerar o conceito muito amplo e responde, “por mais que não tenha o reconhecimento da sociedade, o circuito artístico já reconheceu”.

Osasco é vizinha do bairro Jaraguá. Cripta Djan, reproduzido em tantos prédios da capital, é vizinho do MRGN, ainda fresco nas paredes. Para Morgana, o pixo não traz danos à cidade, mas sim à própria construção, “o muro já é uma agressão física, é muito ruim o desmatamento, e a pichação é uma agressão estética”, garante ela. Djan, mesmo sem conhecê-la, concorda. Em suas palavras, “o muro é intervenção física no espaço público e ambiental, o pixo é superficial, não traz doença”.

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