Resenha: “Livre” mostra jornada de autoconhecimento pela peregrinação

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Não é estranho o cinema retratar a vida de pessoas “danificadas”. Em “Livre” (2014), de Jean-Marc Vallée, a personagem da vez é Cheryl Strayed. Interpretada por Reese Witherspoon, a norte-americana vê na natureza selvagem e no caminho de 1.800 km a solução dos problemas interiores. 

O filme é baseado na autobiografia “Livre - A Jornada de Uma Mulher Em Busca do Recomeço”. Em 1995, a autora Cheryl caminhou pela trilha conhecida como Pacific Crest Trail, indo pela costa oeste dos Estados Unidos da fronteira com o México até do Canadá. 

Cheryl viveu infância conturbada com pai alcoólatra e violento. Sua mãe Bobbi (Laura Dern) aparece como a força da casa. Após abandonar o marido, voltou a estudar e continuou a sorrir e cantarolar, ainda que os filhos não entendessem seu otimismo. Precocemente -e injustamente-, a mulher cheia de vida morre de câncer aos 45 anos. Após a tragédia, a filha, que antes estudava na faculdade e trabalhava como garçonete, toma um rumo autodestrutivo. 

A história é contada por flashbacks. A cada km alcançado, pedaços das lembranças vêm à tona. No caminho, descobre-se o porquê da viagem e há uma simpatia com a protagonista e sua trajetória. As dores causadas pelo desgaste físico exteriorizam as feridas do passado de Cheryl, que cuidadosamente aparecem ao longo da narrativa. 

A personagem, antes de seu trajeto na Pacific Crest Trail, via sua saída em heroína e sexo com qualquer homem que conhecesse, exceto seu marido. Isso acaba em divórcio e procura por autoconhecimento. A viagem é uma metáfora de reconstrução da vida anterior, redenção pelos erros cometidos e reconciliação com a mãe já morta.

Na trilha sonora do filme, há faixas indie que dão a sensação de independência, como "Walk Unafraid" (caminhada sem medo, em tradução livre), cover da banda R.E.M feito por First Aid Kit. O restante da lista é composto por nomes antigos, entre eles estão Bruce Springsteen, The Shangri-Las, Wings e Leonard Cohen, recentemente morto. As músicas são tranquilas, com batidas calmas e marcantes.

É inegável a beleza fotográfica da obra. A natureza atua como grande coadjuvante do longa-metragem. A paisagem vai dos lagos às montanhas, e a luz solar ressalta as expressões da atriz principal. O meio ambiente ganha cores vivas, enquanto os lugares fechados são retratados de modo sombrio.

O cineasta canadense Jean-Marc Vallée foi aos holofotes do Oscar pela primeira vez com “Clube de Compras Dallas” (2013). A produção recebeu seis indicações em 2014. Venceu nas categorias de melhor ator, com Matthew McConaughey, melhor ator coadjuvante, com Jared Leto, e melhor maquiagem.

Conhecida como a eterna “Legalmente Loira” (2001), Reese Witherspoon mostrou-se mais que a moça bonita de comédia romântica. O trabalho da atriz em “Livre” rendeu-lhe uma indicação ao Oscar por melhor atriz. A estatueta ficou com Julianne Moore pela atuação em “Para Sempre Alice”, mas a indicação trouxe a Reese um novo horizonte a ser explorado nas escolhas por próximos papéis.

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