Meu primeiro estrangeiro

16:27


Foram dez, onze ou doze horas -o tempo de conexão me confunde- nas alturas. Nunca fiquei tanto tempo dentro de um avião. Ou aeroporto. O de Madri era enorme, com McDonald's à base de euro e todo um conjunto de lojas caras que iludem o turista inocente. Não, o duty free não é uma pechincha. A pequena parte da Espanha e seus aviões fizeram parte do caminho por falta de mil reais a mais. Era um infortúnio necessário. Apesar do chá de cadeira em meio a conversas alheias em línguas desconhecidas, não me senti por fora. Continuava ali, sentada, esperando, idealizando. Era uma paragem de poucas horas em desconforto. Algumas caminhadas de lá pra cá até parar na porta de embarque e ficar.

Vista privilegiada da janela. Segundo voo, aeronave menor, chances maiores de não sentar no meio. Dessa vez, sem "Perdido em Marte" ou "Cisne Negro" para me distrair durante a hora de ponte aérea entre Madri e Porto. Nem enjoo pude ter, toda agitação no meu estômago era a ansiedade pelo momento que deveria mudar minha vida. Não podia voltar pra São Paulo sendo ainda eu depois de seis meses na Europa. Será um semestre jogado fora se não for usado para uma reprogramação de mim mesma e minha independência. Era pressuposto a melhor época da minha vida. Pressão pouco grande demais para os ombros de dezenove anos vividos em um território geográfico que se limitava no básico do sudeste e sul brasileiros. 

Pousamos e andei em direção ao transporte público esperando algum tipo de recepção. Não sei por que. Imaginei pessoas me encarando com olhos cerrados e feição de indagação. "Uma gringa, quem será", pensei. Sem ser notada por ninguém além do segurança, senti-me constrangida por estar em local que não pertencia à mim. Era como se invadisse uma casa sem conhecer seus moradores e sem ser chamada, apenas carregando a carta de aceite da Universidade do Porto e uma porção de expectativas na mala. Nunca imaginei ter uma sensação tão estranha na minha primeira vez. O primeiro país, depois do meu -excluindo, claro, o aeroporto de Madri e seu comércio-.

O metrô era mais para trem, lento e na superfície. Todo espaço estava ocupado por malas que iam até a cintura dos viajantes em pé. Eram muitas estações até a heroísmo. Durante os trinta minutos e alguma coisa, não perdi a chance de espiar pela janela. Em certo ponto, árvores estilo floresta inglesa apareceram na velocidade do veículo e um conforto passou pelo estômago aos pensamentos, até que atenuaram. Um sorriso saltou e percebi pelo reflexo a felicidade que havia encontrado ali, naquele verde tão comum, mas tão de outro continente. Esqueci da sensação estranha e das pessoas que estavam ali. 

Eu nem sabia o quanto ia mergulhar nessa realidade alternativa e como iria ter mais primeiras vezes que imaginei.

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2 comentários

  1. Caí no seu post de paraquedas graças a indicação do Bloglovin'. E adorei tudo que você falou, nunca fiz intercâmbio mas é interessante conhecer uma visão tão diferente das que vejo por aí. Lembro que te conheci no Criação, bem pouco mas é incrível a forma como você se expressa. Inspirador, eu diria. Futuras jornalistas se entendem, eu acho. Obrigada por compartilhar algo tão bacana! <3

    Ah, é a Thaynara Moretti e eu tenho um blog bebê também.
    www.rosastenue.com.br

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    1. Ah, que linda, obrigada, Thay, significa muito pra mim. De jornalista pra jornalista, hahah. Vou te acompanhar <3

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