Diário de intercâmbio: três meses que acabou

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Há três meses a dor nas costas passou. Não tomo banho de um minuto, nem vou ao vizinho pedir a blusa que caiu do varal. Já não escrevo no caderno azul claro estampado com flores rosas e amarelas que ficava um pouco para fora da mochila. Não leio livros antigos e originais em inglês para fazer os oral tests, nem mesmo pesquiso sobre Donald Trump na BBC para não passar vergonha de terça e quarta.

Essas são partes boas, eu pensava. Mas sinto falta das ladeiras e da cara emburrada da atendente na quitanda da rua. Nunca esqueço de sua grosseria quando pedi um limão siciliano. "Aqui só existe um limão", disse em tom de voz alto e áspero, parecendo não precisar vender naquele momento de mau humor. Como iria saber que lá o limão amarelinho não se chama siciliano e, na verdade, o verdinho é conhecido como lima? Tempo depois, na tentativa de comprar uva sem semente para fazer Sangria, descobri que a mulher não estava num dia ruim, ela era assim mesmo, uma portuguesa nata. Como vingança, bolei um plano na minha cabeça para roubar uns morangos suculentos que ficavam do lado de fora. Não tive coragem.

Há três meses não roubei morango, não viajei a Nazaré, não fui ao jogo do Porto no Estádio do Dragão, não subi a Torre dos Clérigos, nem andei no teleférico de Vila Nova de Gaia. O número três faz-me perder imagens do meu consciente precocemente. Não lembro bem de como foi a conversa com Mark sobre Fahrenheit 451. Apenas sei que foi suficiente para tirar 12, ou 14, e passar em Inglês B2.4. Não sei como a chama a rua mais íngreme que já subi, ao lado do Passeio das Virtudes. 

Senti um alívio ao notar que o interior do bar 77 (seria pronunciado sete sete, ou setenta e sete?) ainda estava fresco. Os cachecóis de diferentes times de futebol estendidos na parede, os preço dos shots, bagaço era o mais em conta por por 50 centímetros, e o jukebox que nunca foi usado. Memorizei o recorde de vendas de Super Bock mini estampadas em grandes quadros. Aproveitei o pedaço de bolo e a cerveja de graça no aniversário de sei lá quantos anos do bar.

Torço para que, depois de mais vários três meses, eu ainda recorde o lado ruim. Odiei o chuveiro mais para chuveirinho, a chuva forte e o estrago na única bota que tinha, o sotaque antiquado acompanhado por antipatia e a falta de salsicha comum no mercado. 

Agora, tão distante, viveria as inconveniências mais uma vez. Talvez goste mais dos vizinhos velhos e reclamões e do preço do sorvete de café daquele lugar fofo, cujo nome eu já me esqueci.

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