Amigo imaginário

22:12


Não tenho dez anos. Passei da maioridade e tô alcançando os vinte. De casa para faculdade, da faculdade para o curso, do curso para casa. O caminho pode ser solitário, apesar das 80 pessoas que o ônibus coloca como capacidade máxima. Acredito nesse número todas as manhãs, quando trabalhadores se espremem até a porta da frente falhar. Algumas manhãs são as mesmas. O cobrador emburrado, o motorista por trás da cortina, a mulher na cadeira de rodas, -a mais animada que todos-, e assim vai. Mas todo dia, algo diferente acontece. Como a senhora dormindo em pé com feição engraçada ao lado da porta, quase batendo o rosto no cabo de segurar, ou o loiro gótico que usa um fone de ouvido silencioso e gigante e passa por cima dos velhinhos para sentar. 

Em todos os comuns, mas interessantes, acontecimentos, procuro alguém para contar. Nunca há. A não ser que encontre um conhecido, mas há tempos não acontece. Precisei imaginar pessoas na cabeça. Não que fale sozinha, imagina lá. É mais como um ensaio para contar à próxima pessoa com qual conversarei. Dependendo do que for, sai um sorriso sem querer, que logo desfaço ao perceber no reflexo de algum vidro por perto. Não conto no final. Acabo por guardar para mim todos os diálogos sobre as pequenas coisas. Às vezes não me sinto sozinha. Ou seria sentimento de solidão camuflado por loucura. 

São bons os amigos os que me escutam, por guardar apenas comigo, talvez. Não há mau humor matinal, oscilação de temperamentos ou olhares feios. Só os desconfiados de quem lê, nos meus gestos, pensamentos incomuns. Gosto de pensar, de alguma forma, que aquelas pequenas coisas não passaram batido no meu dia, que prestei atenção para formular uma frase na minha cabeça, mesmo que apenas para mim. Só são vinte, não estou velha para amigos imaginários

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