O novo e o velho

19:22


O pisca pisca envolvido por pequenas bolas de papel ilumina a velha cômoda. A madeira já desgastada faz parte do meu quarto há seis anos. Há dois meses, as luzes foram compradas na loja barata que tem de tudo, Ikea, no Mar Shopping. Sua cor amarelada na falta de claridade é indício de que nada seria igual como deixei. Precisei trazer rastros do intercâmbio de seis meses, me dei conta de que algumas coisas de Portugal não encontraria em São Paulo, a cidade com tanta opção, que se torna vazia. 

Ao abrir a caixa para montar, senti falta de duas peças fundamentais para compor a série de luzes. Mesmo com seu defeito, vejo nela de fevereiro a julho, dez países, roupas as quais não compraria nem com cupom de desconto e agora não as tiro do corpo, pessoas, boas, más, amigos. Vejo-me como uma estranha e sem a certeza que a nova versão se encaixa no velho meio. Uma garota sem medo de colocar o mochilão nas costas, mesmo que doa e sue os ombros, e nenhum novo caminho por vir.

Nem tudo mudou, ainda tenho pavor de fogo, de turma de aula nova e de ter de pagar muito dinheiro sem prever. Mas mudou, e o que mudou, talvez não faça diferença. Não é preciso colocar mantimentos para um mês sem ultrapassar o limite da Ryanair, ou fazer as contas em euros no mercado e ver que dá para comprar pastéis de nata. Não consigo usar as roupas deixadas aqui, ou cozinhar da mesma forma num fogão a gás. Nem olhar para o mapa na parede sem me perguntar quanto tempo levará para conhecer outro continente. 

Duas semanas das novas luzes na cômoda e de sonhos, sem querer, com aviões, sites de turismo, ruas estreitas e ingrimes e até com o sotaque irritante português. As pessoas perguntam se quero voltar. Quero. Não para o Porto, mas sim no tempo. Nas noites na Adega, nas corridas desastrosas no Palácio de Cristal, no pôr do sol das Virtudes, nas conversas com quem agora está do outro lado do mundo e nisso tudo, que preencheu os dias mais marcantes da vida de alguém que voltou a ser comum. 

Fico entre ser a nova de lá e estranha daqui, ou me tornar, de novo, quem costumava ser, tendo como reminiscência um mapa, fotos instantâneas e luzes defeituosas.

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