Onze e onze

12:07


Relógio marca onze e onze e pedido cotidiano nas horas iguais. Sempre o mesmo, até que se realize. Mudei o meu há dois meses e meio. Não sou supersticiosa, não carrego pé de coelho nem sal grosso, mas guardei o trevo de quatro folhas dentro do meu livro favorito e não parei com a mania de, quando o horário é igual, dar dois beijinhos, fechar os olhos e repetir na minha cabeça a frase de sempre. 

Os números das horas e dos minutos se encontram e vejo uma oportunidade de lembrar. A saia azul de aeromoça que não usei, o trem para Londres que não peguei, as escadas da Torre Eiffel que não subi, o carimbo da Hungria que não tive, o artista que não entrevistei, a bicicleta de Amsterdã que não montei, o apartamento perto da estação Fradique que não comprei. Posso pensar de novo nos sonhos e, como num incentivo, os querer cada vez mais. 

O universo não irá me conceder favores pelas 24 oportunidades que tive durante o dia para desejar o mesmo. Não acredito nem que seja responsabilidade dele. É o relógio que apenas me ajuda a recordar todos os porquês de ainda me preocupar em olhá-lo. A cada pedido de horas iguais, mais uma sem realizá-lo. 

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