Deserto, estrela cadente e tempestade de vento

18:53


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As estrelas começaram a aparecer e chegamos ao acampamento. Marroquinos cantando aí se eu te pego, mais chá e comida esquisita sem água. O jantar me mostrou que brasileiros temperam melhor. A fogueira pós-refeição intercalava refrões de hits brasileiros cantados por nós, as nove amigas, e músicas aleatórias dos berberes com seus tambores que mais pareciam grandes assadeiras. Os ingleses turistas que se juntaram pareciam não conhecer nada para cantarolar. Nem no wannabe nos acompanharam. Talvez por isso os anfitriões sempre começavam com Michel Teló.

Meu intestino apertava, a falta de luz chateava, as privadas entupiam e as estrelas aumentavam. Deitar no céu para olhá-las era a melhor decisão que podia ter tomado. Nunca deitei com tão gosto. As três Marias brilhavam de tal forma que era como se soubessem que estava ali. Contá-las não era possível, tampouco tirar foto. Eram infinitas, a todo lado preenchiam o universo. Quando pensei não conseguir ver nada mais lindo, uma estrela pequenina passou rápido em meio as milhares outras. O céu não poderia ter algum tipo de sujeira, pensei. Ouvi "não foi uma estrela cadente?" e fiz um pedido. Agradeci a Deus e soube que não havia sorte suficiente para viver aquele momento. Se Portugal era longe demais, a África já não fazia parte do meu mapa mundi psicológico. 


Dentro da tenda, quatro camas. Como no hostel de Marrakesh, a decoração era linda. Estampas que toda brasileira gosta, até mesmo nas mantas, duas. Em algum momento entre 00h e 5h, acordamos com um uma surpresa que se parecia com um terremoto. Por todos os cantos, os panos balançavam e nos engoliam, como se uma mão gigantesca nos chacoalhasse. Um sopro sofrido pelos três porquinhos seria como aquilo. Meu cansaço era tanto que dormi depois de alguns minutos paralisada com medo de que, estranhamente, fosse algo horrível acontecer. No momento pensei em Jean Grey e X-Men, parada, me encarando na melhor versão Fênix. No dia seguinte, Muhammad nos disse que se tratava de uma tempestade de vento, algo normal. Pra ele. Respondi que era experiência foi boa e não menti. 

Quando me levantei, senti todas as partes do meu corpo doloridas, principalmente as que ficaram em contato com Ramuna. Senti-me como nas aulas de muay thai que deixei para trás. O nascer do sol me lembrou a emoção que o mundo lá de cima me trouxe. Pensei no meu pedido e esqueci de todos os perrengues. Não foi fácil como achei, mas se fosse, não seria maravilhoso. A mostarda que dava vontade de trocá-la até por enxofre. A sopa que parecia água suja e sem gosto. O acompanhante, que chama algo parecido com Richard, nos trolando toda vez, mas com ótimo gosto musical. Senti falta do Shazam.


Para voltar à van, roubaram Ramuna e me deram um camelo com pata machucada, pelo que me foi dito. Equilibrava-me quando tentava tirar uma selfie e ele tropeçava quase me deixando cair. Quis fazer justiça pelo animal, mas minha assadura me dava medo de acabar a pé ou num camelinho mais rebelde. Pequenas crianças foram a pior parte, no final. Pediram biscoito e nem bala tínhamos. Arrependi-me por não ter obrigado Richard a ter nos levado ao Carrefour. Não é como se não passássemos por isso em São Paulo, não sei por que, mas nosso coração se quebra em dobro quando estamos na posição de turista. Na volta para a cidade, não sei se foi a natureza envolta ou o banco desconfortável onde não consegui dormir, mas pude ter o momento reflexão das experiências e aprendi tanto sobre mim mesma que tenho medo de um dia esquecer essa trip tão maneira.

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