Conhecer sem conhecer

19:31


Algumas manias independem da idade e da época. A dificuldade da estação climática me deu a oportunidade de refletir. Fazer roupas secarem nas chuvas mil do verão é uma tarefa complicada, qualquer aparecimento repentino do sol é motivo para abrir a janela e colocá-las ao vento. Ainda mais em um país onde roupas na varanda é como leite no café da manhã.

Dias atrás, os raios solares resolveram dar as caras ao meio-dia, perto do horário de saída das escolas. Abrir os vidros da janela permite que todo ruído ignorado passe a fazer parte do cômodo como se viesse do quarto ao lado. Entre o som de tênis no asfalto em corridas curtas, mochilas de rodinhas e risadas, ouvi uma das crianças cantando: “Óh, óh, óh, óh, óh...”.

Notas eram entoadas de modo desafinado e extravagante na tentativa de imitar uma música clássica. Reconheci aquele ritmo, apesar das dores nos tímpanos que a criança me causara. Descobri que havia uma escola mais perto que imaginei. Minha curiosidade me perseguiu até eu descobrir o nome daquela canção. A Rainha da Noite, da ópera A Flauta Mágica, escrita por Mozart.

Nunca havia parado para pensar em como as óperas, as sinfonias e a música erudita se tornaram um tipo de piada às crianças e jovens. Elegantes e cafonas ao mesmo tempo. Ninguém tem ciência da origem, mas sabemos cantarolar várias melodias desse mundo que não é o nosso. Basta ouvir um pequeno pedaço de uma obra famosa de Mozart, que qualquer pessoa reconhecerá e, muito provavelmente, tentará cantar junto. Por algum motivo, o clássico se tornou antiquado e engraçado, talvez pela antiguidade ou porque um garoto loiro repetindo a mesma frase por cinco vezes agora faz mais sentido.

Se não há cantoria, improvisamos reproduzindo a sonância da obra, mesmo que num ato embaraçoso e pouco semelhante à original. Se há a voz feminina, nos esforçamos até atingir o mais agudo possível e, quem sabe, ouvir algumas risadas por isso. Os coleguinhas daquela criança com certeza reconheceram o que estava sendo cantado, mas não deveriam saber que seu compositor, aos cinco anos, talvez metade de sua idade, compunha minuetos e peças.

Algumas notas musicais, harmonias e melodias são universais, é difícil segurar aquele instinto interior de nós, leigos, de murmurar seu ritmo, mesmo que completamente desacertado. Não sabemos quem idealizou e escreveu, apenas nunca perdemos a piada.

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