A cidade sem cor

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Medina era a região onde nos hospedamos. Dez meninas se enfiaram nessa aventura, algumas com expectativas demais, algumas, de menos. Nos assustamos no começo, é verdade, nem todas tiveram vontade de sair pelas ruas. Quem era responsável por nós resolveu ir à Inglaterra e nos deixar com seu irmão, que, apesar do bom gosto musical, não nos acompanhou no deserto, nem gostou de nossas reclamações. Enquanto Mustapha tomava chá com a rainha, tentávamos desconstruir a mania da família de não ser claro com turistas (ou mulheres). Era o ultimo dia e, como quem gosta de camelô, precisávamos comprar. 

Já tinha me acostumado, motinhos montadas por pessoas em túnicas por todos os lados e trânsito desgovernado. As mulheres com o traje completo não demonstravam no olhar tristeza ou felicidade, apenas me sugava para dentro e me fazia começar um debate interno que sempre evitei. Tentei usar meu lenço para cobrir o cabelo, estava determinada. O sol começou a apertar e percebi que, se quisesse passar minha noite em Madrid sem cheirar a banheiro, deveria abrir mão de tentar me integrar ao lugar. Logo a camisa xadrez foi parar na mochila e o suor na parte de cima da testa. 


O mercado era tentador. As mochilas de couro com carpete me queriam como Donald Trump quer América. Aprendi a arte de pechinchar. Depois de muita discussão em inglês, português, espanhol e muito "obrigado, de nada", "neymar, ronaldinho, kaka", "é Brasil? Pobres", fiz com que um deles me vendesse por 21 euros. Deveria ter lutado mais por esse 1 no final, o mesmo preço de um desenho na mão feito pelas mulheres muçulmanas talentosas. No final, saímos todas com flores na pele. Povo marroquino é povo negociante. Nunca acredite no preço inicial dos espertinhos. De 70 dirhams (equivalente a 7 euros), conseguimos dois anéis por 45. 

A cidade e, provavelmente, Marrocos inteiro, não mostra suas cores em paredes ou mesmo nos ônibus circulares. Apenas um tom salmão/barro para todo o lado. Em quatro dias seria impossível entender a cultura de um povo, mas sua empolgação em ser simpático na hora de vender, uns mais que outros, lembrou minha casa, minha cidade, minha 25 de março. Tajín, nosso jantar por três noites composto por frango, legumes e um tempero estranho, não sairá do meu intestino tão cedo. Os barulhos constrangedores continuam me perseguindo, junto ao cansaço das noites mal dormidas, as imagens das estrelas no deserto e da melhor viagem desses 19 anos.

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