Sem ficha

16:11


Eu tentava escrever. Preparava-me para começar, mas a luz que entrava pela janela me chamava. Com o canto dos olhos espiei a casinha da frente, com sacada pequenina e varal improvisado. O modelo vazado e em curvas me remetia às fotos que tanto salvei. As construções, que por ora ficavam na minha tela, me ajudavam a imaginar como esses dias seriam. Sem precisar mais usar de ficção, ainda o faço. A ficha ainda não caiu, não quero que caia. Por mim, que flutue nos sonhos enquanto os vivo.

Olho fixamente para a vidraça da vizinha, ou vizinho. Um português briguento, provavelmente, como a senhora do apartamento da 1ª direita. Eles têm a mania de brigar conosco mesmo tendo nos conhecido naquele mesmo dia. Alteram a voz e apontam o dedo como se a culpa da encanação e do desmatamento fosse sua. Ai se minha amiga aperta a campainha errada. Sorte dela não falar português. 

Contraí meus ombros em sinal de desconforto com o frio. Desde que sentara nessa cadeira dura de madeira da senhoria, não criara a coragem de colocar uma segunda meia. Meu verão ficou em São Paulo, mas parece tão perto. Sinto-me estranha num país estranho. As palavras certas estão demorando a chegar, junto a ficha, a roupa certa a usar e um chuveiro de ducha. 

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