A praia que não parece ser

21:28


A canela descoberta sofria. A areia parecia a mesma. Menos lixo. Em vez, madeiras, galhos sem fim que machucavam a sola do pé frio, ainda que não havia árvores envolta. Pedras mais cinzentas e água ferozmente congelante. Da ciclovia, era como qualquer praia que já fora. Em cima de uma das milhares pedras, não se assemelhava nem com a realidade. Era outra, não mais aquela de precisar economizar dois anos para pagar uma viagem ao Rio. Agora, o trem virou rotina. Os 1,40 euros valiam a pena.

Nunca achei possível pegar uma hipotermia em plena areia fofa. Cada pelo do meu corpo me mostrava o quão errada estava. Refém da teimosia, a falta de voz era uma lição. Uma que provavelmente não adiantará muita coisa. Ainda coloco roupa de menos e esperança demais. Cada mínima diferença que imperceptível daquele lugar era como as pequenas mudanças em mim. Invisíveis, dão as caras lentamente tão lentamente quanto o 3G da Claro. Os cravos malditos não me deixaram, nem as decisões estúpidas, mas sinto que, depois de muitas mais, se tornarão menos frequentes. Espero que sim.

Os tons rosados do céu, acima da pequena igreja, me remetiam àquele filme da Disney dos ursos/humanos. Um roteiro infantil ao pôr do sol, ao anoitecer, de adolescentes sonhadores e iludidos. A fumaça da fogueira entrava nos meus olhos fazendo com que sentisse três graus de hipermetropia a mais. Chorei como se o inverno nunca fosse acabar. Acostumei-me com o calor do fogo e me permiti sentir. Arrependimentos, pelo pouco casaco, dinheiro gasto e outros que não os convêm. Foi bom, o dia. A primeira logo chega, eu sei.

Você também poderá gostar

0 comentários