Diário de intercâmbio: Primeiro dia

21:43


Medo de primeiros dias, sempre tive. Medo de primeiros dias em outro país, nunca. Sensação esquisita, assombrosa e instintos atrapalhados. O frio na barriga parece mais como uma nevasca, além da friaca de fora que conseguia ultrapassar todas as camadas de roupas. Mais deslocada impossível. Minha tática de fazer amizades ao perguntar sobre o lugar se tornou tática de sobrevivência. Havia mais conterrâneos que imaginei. Nenhum me fez sentir em casa. 

Cada "pronto" do professor me lembrava a longitude da minha universidade de origem. Não que eu sinta falta da instituição, mas me dei conta de quão confortante eram os rostos que via todos os dias. Até aqueles que não queria ver. Da cara de bunda ao sorriso mais largo, todos traçavam a minha rotina e zona de comodidade. O laboratório não estaria no sexto andar, nem a lanchonete no terceiro. A bagunça saiu da cabeça e foi para o meu redor, papéis de horários riscados com letra de médico, cêntimos perdidos em centavos e roupas erradas pro clima.

A carteira de madeira com o horário "4h20" e nomes entre corações me tranquilizou. São pessoas. Assim como as que rabiscaram as mesas de plástico que sentei semestre passado. Algumas talvez vejam algo que valha a pena conhecer em mim, espero. Apenas uns "Estás a cá desde quando?", "De ondes é?" e "Erasmus?". Por enquanto. 

A chuva, lá para metade do dia, me inundou. Não porque senti a água congelante até na roupa íntima, mas sim por me dar um teaser de uma época de realidade e imprevistos adultos, desses que nunca tive.

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