Em alta velocidade

21:15


O trem tão diferente da CPTM. Acostumei-me com os empurrões e maus olhares. Agora, o verde ocupava minha visão. Não era do tipo Vila-lobos, Ibirapuera ou Parque São Domingos. Uma flora diferente e saudosa. Ou, não. Sei que estou longe, as horas no ônibus não me deixaram esquecer, talvez minha percepção esteja comprometida. Os pontos pretos de sujeira da janela me lembravam que estava tudo lá fora, mas nunca me senti tão perto do mundo. Inteiro. Não mais somente o meu. O verde tão preso aos meus olhos. Laranja também, cor de areia. Passava rápido, mas não preciso de muito pra gravar comigo. 

Reprimi o começo de enjôo. Sabia que, nessas horas, devo olhar para frente. Mas a minha frente só teria para encarar o francês de escarfe e óculos, no meu chute, de marca cara. O trem tem como destino a cidade francesa Marseille, então não o estranhei. Ao lado dele, mais tarde, sentou um alemão. Intrigantes, os dois. Mas queria mesmo era continuar a me deslumbrar. O livro já guardei. Era apenas eu e mundo.

De minuto em minuto o céu mudava. Nuvens, carregadas cinzentas e brancas, flutuavam como num cartão 3D. Pelas minhas contas, já havia passado pelo quarto arco-iris. Barcelona se aproximava a cada um deles. Tantos de uma vez. Sinto como se estivessem aparecendo só para mim. Como um aviso. Um spoiler de toda beleza inusitada em sua primeira vez. Nem o ciclo do ouvido entupindo e desentupindo conseguia distrair das montanhas e vilarejos.

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