Restritos no tempo

18:16


Entre nós havia sossego. No gelado da chuva, o mínimo toque me aquecia. E quanta chuva. Sentia-me como o motivo do pouco que as reservas aumentaram nas últimas semanas. O clima nos perseguia, como deuses caçam os amantes infratores, os jovens vivendo o romance proibido e destinado a não acabar bem. A nossa data de validade estava para mais dois meses. Compramos a história sem nos importar com o tempo que viria a expirar. Mas sabia. Sabia eu, sabia você. Estávamos pré-determinados como a previsão do telejornal. 

Seu peito era o lugar mais aconchegante onde poderia estar. Seus braços me escoltavam para um ambiente de calmaria. Era primavera. Podia muito bem ser inverno. Não sentia nada além da temperatura do seu corpo. Meu ouvido se concentrava no seu batimento cardíaco. Meu batimento cardíaco. Na minha cabeça, uma sensação inédita de confiança descautelada. À vontade, pensei, qual seria a última vez que me sentia assim. Não era um amigo de dez anos e tralalá. Era um garoto. Meio desajeitado, meio ardoroso. 

O calor do nosso amor não era o fogo da paixão. Era aquele sentimento, quando, ao pensar no outro, seu sorriso abre e seu coração se aquece. Numa lembrança prazerosa, começa a sentir seu corpo se contraindo na tentativa de experienciar pelo menos uma fração do passado. É quase alcançável as borboletas, os olhares, os sorrisos. Ah, os sorrisos, preferidos meus. Você sabia o momento perfeito de lançá-los em minha direção. Era seu superpoder.

Seu lábio no meu e eu sentia a quentura. Cada pelo do meu braço que ia de encontro a você se levantava num gesto de certeza. Era certo, aquilo, acabasse hoje, amanhã, a quatorze dias. Era quente como minhas emoções confusas se colidiam e se esvoaçavam numa sintonia estranhamente adequada. Na medida do possível, me entendia no caos interno. Nada me aquecia mais que nós dois. Juntos. Dentro do nosso prazo de validade.

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