Grudou de jeito

19:59


Não saia da cabeça. Ecoava o refrão criado e pensado em vender em cada frase. Encarava a tela do relatório e o zumbido das palavras em inglês se repetiam. Grudaram que nem chiclete de vendinha, que custam 20 centavos e perdem o sabor após de 20 segundos. Eu havia escutado a música em algum momento do começo da manhã e ainda, já batendo a hora do almoço, ela permanecia, teimosa como só.  Se fosse um ser humano, seria daqueles que sentam atrás de você no ônibus apenas para te cutucar com a perna, como se fosse seu objetivo fazer do caminho mais maçante.

Pensei, se não tiver a deletado da minha playlist, devo fazer o quanto antes. Era a décima vez que isso acontecia  nos últimos meses, se não me engano. Talvez esteja na fase de atrair músicas chicletes. E eu que achava que isso só se dava na época de adolescência, na qual consumimos qualquer produto oferecido por rostos bonitos e inspiradores. Agora vejo que isso funciona em todo momento da vida. Apenas mudam as pessoas propagandas. Ou talvez elas cresçam com você, quem sabe.

Saí a caminho do ponto de ônibus torcendo para que os rostos na rua me lembrassem outras coisas, àque não as três frases repetidas. Cheguei, esperei, entrei. Procurei um assento próximo à porta traseira. O mais vantajoso ficava ao lado de uma garota loira, que vestia calças jeans e regata e segurava uma bolsa estilo saco no colo. Reparei em sua viagem para algum lugar que não aquele, com olhos vidrados para fora dos vidros. Invejei por um instante. Aquele era meu lugar favorito, é preciso muito esforço se não quiser ir para longe ao olhar além da janela.

Aproveitei que o banco do corredor não me distraía tanto e abri o livro novo. Hoje começaria a entrar em uma nova história. Ao começar o primeiro capítulo narrado pela mulher inglesa de trinta anos, as palavras que me assombraram a manhã inteira voltaram a levemente me azucrinar. Percebi ser do fone de ouvido da menina ao lado de onde o som vinha. Fechei o livro grosso e respirei fundo. Logo agora que achava ter seguido em frente, parecia que, na verdade, nunca tinha esquecido. Sabia que ainda teria uma tarde, e talvez noite, inteira de "loves" na minha mente. 

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