Da Vergueiro a Sé

21:54


Estava no último (ou primeiro, não lembro) vagão do metrô e dividia o encosto de um dos cantos com um cara meio grande, provavelmente o dobro de mim. Me esforçava para não cair no banco ao lado. Ler não era uma opção. Muito menos ouvir música, já que as notificações de armazenamento quase cheio apareciam a cada uma hora na tela bloqueada do celular. Se tivesse espaço nele, acho que não ouviria mesmo. Tenho pavor de perder a estação, ou pior, perceber de última hora, me aventurar pelo sinal vermelho e ser drasticamente espremida pelas portas, como seria se ficasse no meio de um macaco de brinquedo gigante batendo pratos. 

O único passatempo que me restava da Vergueiro a Sé era observar. O que não faltava era gente. Interessante, toda. Uns com malas, sem saber bem onde colocar para não atrapalhar os outros passageiros. Estavam indo para Portuguesa-Tietê, adivinhei. Outros com uniformes de hospitais, vi que os uniformizados não eram todos do mesmo, mas reparei em duas mulheres, amigas, ambas do Santa Joana, Quem mais me chamou atenção foi uma criança, menina gordinha, celular na mão, fone no ouvido. A mãe, ao lado, outro fone, outro celular. Não se olhavam. Conversar, menos ainda. A garota, presa no youtube, vidrada na pequena tela de vídeo. A mulher, no whatsapp, nas pequenas letras e seus dois tiques do lado, causadores de grandes desavenças.

Geórgia, minha futura filha, não terá celular, prometi a mim mesma. Mas então refleti, eu mesma não poderia ter, Comecei a me perguntar, pra quê manter um artefato que só aumenta a ansiedade e nos torna escravos por conta própria. Não terei, está decidido. Construirei uma família à moda antiga, retrô. Enquanto estabelecia meus planos, ouvi a chamada do condutor para minha estação e voltei a ficar atenta. Ao sair, sem antes confundir a porta, abri o aplicativo do mapa, do ônibus e do tradutor. Acabava de lembrar uma palavra que precisaria conferir em inglês.

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