Viagem cidade adentro

12:09



O ônibus aproximou-se após dado o sinal. Ao volante, um senhor desconhecido. Talvez fosse novo na linha. Seus olhos estavam cerrados de desinteresse pelos que subiam. Concluí que Jaime passara há uns dez minutos. As conversas fiadas no térreo do prédio da universidade fizeram com que perdesse a chance de fofocar na parte da frente do veículo, com visão privilegiada do trajeto. Jaime diariamente ocupava meu tempo com suas narrativas de solteirice na meia-idade. Nunca o vi sem óculos escuros, de modelo que dificilmente seria visto em um rosto jovem. Eles combinam com as rugas de sol do expediente da tarde e com seus cabelos tingidos de preto, na tentativa de esconder os fios brancos de suas pretendentes. O 8622-10 tinha como destino o Morro Doce, das casinhas amontoadas que me prendiam a atenção sempre que voltava do interior. Eu desceria vários pontos antes.

Bolsas, mochilas e até sacolas de supermercado eram obstáculos. No ar sufocado por poucas janelas abertas, pairava o odor de suor acumulado de um dia inteiro de trabalho, como se acabasse de farejar uma camisa esquecida há algumas semanas no cesto de roupa suja. Típico dos dias exageradamente quentes de início de primavera. Na catraca, o cobrador jovem destacava-se pelos cabelos escuros com algumas luzes no topo da cabeça. Ele vociferava entre risos e em tom um pouco mais alto do que o normal, referindo-se a uma mulher que corria em direção ao ponto:

– Amanhã a gente passa! Amanhã a gente passa!

Porta dos fundos, o local ideal. Poucas pessoas se aventuram até lá, mas valia a pena, para chegar ao destino com as partes do corpo intactas. À minha frente, estava sentado um casal nos seus 40 anos e, gentilmente, o homem, com expressão exausta e aparente tranquilidade, ofereceu para segurar minha mochila junto a sua própria bagagem.

Não pude deixar de observá-los. Surpreendi-me ao ver a mulher de fios castanhos mal tingidos, em um rabo despojado, tricotando uma peça não identificada. Seus olhos fundos e cansados, porém atentos, não se desviavam dos fios da lã, e suas respostas aos comentários do homem não tardavam nem dois segundos. Senti um suor escorrendo da testa ao imaginar alguém vestindo aquilo nos 30 graus que fazia. Ela não aparentava qualquer agonia com a temperatura, estava bem acomodada. Seus diálogos não mostravam preocupação alguma com o quanto já haviam andado. Presumi ser o Morro Doce seu ponto de chegada. Certamente já estavam acostumados com a rotina cotidiana daquela viagem, como se não mais estivessem dentro da cidade.

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