A lista e o nome

17:59


Desatenta como sou, só vi que a lista dos contemplados pela bolsa de estudos tinha saído no dia seguinte da sua divulgação. Não havia recebido nenhum e-mail se não da professora, então não aqueci meu coração com esperanças e tentei esquecer da corrida louca que percorri para participar do processo. Por alguma bondade do universo, estava sentada no ônibus a caminho do trabalho, ainda bem. O 3G estava pior que o normal e o Safari levou todo o caminho do Sesc Pompéia a Uninove para carregar. A lista tinha pelo menos mais de 100 nomes de mackenzistas. As emoções se misturaram, o medo de não ter passado mascarado pela síndrome “não ligo” com a ansiedade pela possibilidade de um sonho realizar. Rolei com os dedos pela tela com rapidez, para ver se dava de cara com meu nome e acabava logo com o suspense. Talvez pelo nervosismo, não conseguia entender a ordem daquela lista e nenhum “Re…” se tornava aparente. Fui obrigada a fazer o que aprendemos a vida toda e ignoramos, inspirei e expirei devagar. Entendi então que a divisão era por centros acadêmicos e procurei o de comunicação. Lá estavam os nomes, alguns em preto, alguns em verde. Pelo que li, os verdes são os que terão a boa notícia para contar em casa. Entre todos os desconhecidos, achei os quatro nomes registrados na minha certidão, era claramente o mais extenso de todos. Abri a boca sem perceber quando notei que aqueles quatro estavam da mesma cor da natureza. Sim, estavam verdes. Não contive as lágrimas, não quis. Não me importava se 50 estranhos mal humorados em plena manhã de dia útil iriam olhar torto para a esquisita com o celular na mão, sem entender se ela estava muito feliz ou muito triste. Precisei copiar o link e mandar para alguns contatos que eu tinha certeza não possuir daltonismo, só assim teria a confirmação. Eles tinham de me falar a mesma cor.

Minha felicidade veio acompanhada de um suspiro aliviado. No fim das contas ligar para a Ariane, do balcão de emergência da polícia federal, valeu a pena. Eu usaria meu passaporte e riscaria mais um item da lista “Coisas a fazer antes dos 21”. É engraçado como a vida se resume a listas. Lista de compras para o bebê que vai chegar, lista de material escolar, lista do vestibular, lista do casamento, lista de coisas a fazer, listas de sonhos a realizar ou mesmo a lista de classificados da bolsa de estudos no exterior. Sentada em outro ônibus descrevo esse momento de há pouco mais de um mês, e nem as chacoalhadas do transporte público me desanimam. Lembrar é reviver as sensações tão frescas em mim. Quem sabe daqui mais alguns meses, de um ônibus de Portugal, narre mais algumas boas lembranças.

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