Um encontro embrulhado


Meu estômago estava embrulhado como um papel de presente esquecido por três anos. Ele estava ao meu lado, preocupado, ainda que fosse só uma ressaca. Soube porque me olhava com os olhos atentos e sobrancelhas levantadas, como quem quer ser levado a sério. “Vai te fazer mal não comer nada”, ele disse.

A cada passo que dávamos, eu respirava fundo e tentava afastar a ânsia pela força do pensamento. Massageava minha testa com a ponta dos dedos, não porque acho que tenho poderes telepáticos (caso ele tenha pensado isso), mas porque também estava com dores fortes de cabeça. “Nunca mais vou beber”, eu disse.

Era nosso primeiro encontro desde o dia que nos conhecemos, dois meses atrás. Nos enrolamos em mensagens despreocupadas e problemas técnicos. 61 dias depois e ele estava lá, dividindo o fone de ouvido e fingindo gostar da minha seleção de músicas indie pop enquanto esperávamos o próximo trem. “Você tem bom gosto”, ele disse.

Em vez de ser a garota com borboletas no estômago, fui a garota com embrulhos no estômago. Culpei o balanço do metrô e escondi minha decepção comigo mesma. Ainda assim, não mudaria os minutos que observamos a Avenida pelo mirante até eu precisar sentar e os que rimos em silêncio da senhorinha perdida na videoinstalação da exposição. “Será melhor na próxima”, eu disse.

Amor de verão


Te conheci por volta das seis horas da tarde. Tu percebeu do outro banco da praça que eu não era dali e veio me perguntar se havia gostado da cidade até então. Confesso, achei que tu fosse mais um maluco que vendia pão de mel por dois reais e cinquenta centavos. O preço dessa capital com cara de interior era bom, mas já estava cansada de dizer "não" às pessoas que me abordavam. Apesar do estresse, cedi aos teus olhos azuis tão claros que quase se fundiam com o branco do tua esclera. Te disse que sim, havia amado o lugar, e completei te comparando a um cantor pop tão fofo quanto tu mas que me irrita com seu rosto perfeito demais.

Tu me disse teu nome, aquele que temi por tanto tempo, carregado de histórias de outro alguém. A diferença de uma letra entre os dois me trouxe alívio, por mais que não acredite em numerologia e que não faça diferença na hora de chamar. Acreditei, no fundo, que tu não era ele, porque teu sotaque era caipira e puxado demais. Outras coincidências apareceram e rimos delas, como se fossem uma pegadinha de um reality show qualquer de encontros de casais ideais. Tu sabe que é só por uma noite, mas eu ignoro o bilhete de embarque dobrado na parte da frente da mochila.

As luzes da festa a seguir me fizeram viajar no teu mundo. Eu não gostava de nenhuma daquelas músicas bregas e ainda assim cantava cada letra guardada - a maioria estava errada mas não me importei -. Gritamos para perguntar e responder questões bobas como "mora só você e sua mãe?", que no momento eram importantes demais para duas pessoas que só tinham um final de tarde e uma noite.

Duas horas de convivência, tu já fazia cócegas em mim e eu ria sem graça mas sem me preocupar com a risada desengonçada. Parecíamos a dupla com mais sintonia da região toda, e nem sabia qual era tua comida preferida. Até hoje imagino que seja purê de batata. Tu tem cara de quem gosta de purê. E de ser uma daquelas pessoas que só conseguem pegar no sono ao lado de outra, se tiver de concha, bem próximo.

O vento da madrugada das cinco da manhã, na barraca do cachorro-quente, era áspero e podia senti-lo rachar meus lábios logo menos. Mas tu me aqueceu com teu fogo da efemeridade, tu quis aproveitar de cada segundo dessas poucas horas. Mesmo no inverno de uma cidade gelada, tu e eu vivemos um amor de verão. Não sei se amor é a palavra certa, mas as duas juntas combinam e fazem sentido. Foi como tomar sorvete no inverno. Um sorvete saboroso, mas que tu percebe o gosto saindo por debaixo da língua em poucos minutos.

Aconteceu por um motivo?


​Desde pequenos nos dizem que as coisas acontecem por um motivo. Não deu certo com aquele namorado ou caiu e quebrou os dentes da boca? Não se desespere, afinal, tudo acontece por uma razão incompreensível para nós humanos. Mesmo que não faça ideia do que tenha feito de errado, mesmo que tenha se esforçado para ser um bom companheiro, tenha dado seu melhor e olhado por onde anda, as coisas não deram certo e você só precisa aceitar.

Porque não é um motivo, são muitos. Ou, ainda, nenhum. E tentar descobrir todos eles (ou a falta dos mesmos) te deixará louco. Você tentou e não foi suficiente. Para aquela pessoa ou pessoas, não para o mundo. Talvez alguém não tenha aprendido a lidar com suas manias de limpeza e sua falta de humor, mas quer saber? Outro ser em algum lugar desse mundão aprenderá, então não perca seu tempo tentando ser algo que não é para conquistar alguém que talvez, simplesmente, não seja uma peça que encaixe no seu quebra-cabeças.

Pode ser que a sola do sapato que usava quando caiu estivesse gasta, mas nem por isso desista de olhar para os inúmeros buracos ao longo da rua. Alguns deles você conseguirá evitar e outros não, mas tudo bem, porque você tentou. E dane-se os motivos, sejam quantos forem e quais forem. Não enlouqueça por isso, porque você nunca será perfeito para o mundo inteiro. Seja bom o suficiente para aquela pessoa com remela no olho e sorriso amarelo que você vê toda a manhã quando se vira para o espelho no momento de escovar os dentes.

Você é uma corda bamba


Num dia desses me perdi no controle remoto e o tique de mudar de canal a cada segundo me levou ao Off, aquele em que 70% da grade é composta de surf, trilha sonora indie e pessoas bronzeadas. Passava a série Slackline, com aventureiros se equilibrando em uma espécie de corda. O programa não teria graça se não fosse o penhasco abaixo de seus pés. Sim, os doidos eram tipo trapezistas em montanhas. Eu já conhecia o esporte, mas nunca tinha visto dessa forma.

Algumas horas depois, ouvi "Sorte Que Cê Beija Bem", da Maiara e Maraisa - sertanejo é tipo meu dirty little secret -. Na parte em que cantam "Você é a corda bamba que eu aprendi a andar", entre vozes do público na versão ao vivo, entendi o significado do penhasco e da vontade de tê-lo logo ali, causando enjoo e náusea. É difícil acreditar que um programa de TV de esportes radicais pudesse completar tão bem uma música femineja.

Há alguns meses tento me equilibrar em você, minha corda bamba. Sempre soube que eu não levo o menor jeito para esportes, e pelo jeito isso também vale para os amores com adrenalina. Tentei de tudo: ir devagar em cada passo, ignorar o medo, inspirar e expirar como nossos pais ensinam, não pensar no ponto final da linha... mas você é instável, como se os ventos fortes da parte mais alta da montanha não te deixassem acalmar.

Em pouco tempo a corda perdeu sua força. A vastidão abaixo dos meus pés cansados passou a representar tudo, ou nada, que sentia quando você me balançava e quase me fazia cair. Deveria ter te encarado como uma brincadeira desde o início. Da primeira vez que tentei andar sobre seus desafios me machuquei, dessa vez, desisto de novo antes mesmo de alcançar o meio do caminho.

Eu nunca quis dizer adeus


Te disse o primeiro oi há tempos, mas ainda me lembro do Ray-Ban preto wayfarer - todo mundo possuía um na época - que usava para esconder o inchaço dos teus olhos. Hoje tu reclama de coisas que são modinha e eu rio, porque percebo que assisti às tuas mudanças a uma distância segura o suficiente para dizer que te conheço, mas não te entendo. Naquele dia de tristeza alheia que te vi e senti meu coração de adolescente derreter, não imaginei que em outro dia, após anos, tu é que seria o motivo da minha chateação. 

Sempre odiei sua pouca habilidade em se comunicar. Ainda odeio por não se sentir confortável para dizer que comeu uma cebola estragada no almoço, ou para soltar o nome da menina que já te deu um fora. Tu me irrita e sabe disso. Irrita porque não é incapaz de demonstrar sentimento algum e perde momentos bons por isso. Mas irrita mais ainda porque não percebe o quanto gosto de ti e o que já fiz pra que déssemos certo.

Quando digo certo, incluo nossas pirraças e diferenças. Não me importo em ouvir aquelas bandas de reggae com vocalistas rastafári, contudo que seja contigo que eu divida o fone de ouvido. Apesar de suportar e sentir falta de tuas manias, sei que teu desapego nunca vai dar match com meu apego. 

Já digitei um adeus e deletei, porque tu sabe que, como da primeira vez, eu nunca quis dizer adeus. Na verdade, só quis que tu dissesse fica. Talvez seja verdade o que dizem sobre algumas coisas nunca mudarem.

De novo


Eu sonhei contigo, acordei depressa e tentei lembrar todos os detalhes perdidos no subconsciente. Tentei reconstruir aquela cena em que nós ríamos numa rua que nunca fui e tu me olhava com meu sorriso favorito, meio torto, contraído e sem os dentes. Naquela noite, descobri que ainda gostava de ti e que fui a última a perceber. De novo, eu tentei estar perto de ti ainda que tu pareça ter medo de mim.

De novo, eu sinto o aconchego dos teus ombros. Sem que precise falar, sinto um mar de emoções vindo da tua pele quente. Um mar que chegou à areia com algum tempo de atraso e trouxe sentimentos antigos, ancorados nas profundezas. É, eu sei que tu esperava que eles tivessem perdido a forma e que eu só fosse mais um peixe. Mas tu pode me dizer que nem o golfinho mais atraente do Oceano te faria sair da minha vida.

De novo, perco a paciência contigo. Nossos ritmos são diferentes e, enquanto eu te acelero, tu me acalma. Tu é como uma brisa leve que, aos poucos, me faz arrepiar e sair da zona de controle. De novo, encontramos-nos em partes diferentes da história. Mas, tu sabe, apenas fico feliz que não chegou o fim.