​ Ele comprou um guarda-chuva


Sentar na frente dele com uma garrafa de cerveja entre nós era novidade, ainda que esta cena parecesse uma reprise das dezenas outras do ano anterior. As novidades em si não eram muitas, nós éramos os mesmos jovens sem medo de tomar uma chuva.

Acontece que juntos, um ano atrás, éramos diferentes. Juntos, ele se recusava a comprar um guarda-chuva para os dias pluviosos, e dividíamos o meu bege de bolinhas pretas. Reclamar da água que nos atingia toda vez que saíamos virou uma coisa íntima nossa. Por meses, as gotas que escorriam da janela me lembravam das gotas de suor dele.

Até que parou de chover na nossa horta. Já havíamos colhido as plantações e não restou nenhuma. Entre nós, deu-se um espaço seco e sem esperança. Ele percebeu antes que eu pudesse me preparar para o temporal que viria. Toda a água dentro do meu corpo vazou pelos olhos e, quem ficou seca, fui eu. Hoje, as bolinhas pretas viraram estrelas brancas, e ele finalmente comprou um guarda-chuva.

Ficção de um minuto


Maria e eu fazíamos o trajeto de trem na linha Esmeralda, como todos os dias. De segunda a sexta, ela me convencia a pegar o comboio em direção à Pinheiros e depois outro em direção a Osasco. Paramos em Pinheiros e, numa brincadeira, tentamos ser as últimas a sair do vagão. Não nos pergunte qual é a graça, não sabemos explicar, mas ela existe.

Quando descemos (não conseguimos ser as últimas), olhei um moço despojado de cabelo loiro escuro e mostrei à Maria. “Ele tem o problema do peito cabeludo”, sussurrou ela. Entramos os três. Na Cidade Universitaria, Maria desceu dizendo que levaria Anita no parque para eu conhecer. Não a cantora, mas sua cadela nova.

Para não pensar na prova do dia seguinte, abri a Netflix e coloquei no próximo episódio de Friends. Segurei algumas risadas e, quando ouvi a voz anunciando a estação em que deveria saltar, tirei os fones.

“É primeira vez que assiste Friends, ou já viu?”, perguntou o menino peludo, que, sem esperar minha resposta, continuou “eu já vi duas vezes, é minha série favorita”. Fiquei surpresa e só consegui soltar um sorriso enquanto dizia “é a primeira vez sim, mas gosto muito”.

Durante o breve momento em que a porta se abria, pensei em como Rachel, Phoebe e Monica tinham encontros descontraídos e espontâneos como esse. Com caras mais atraentes e roteiros bem pensados, eu sei, mas ainda assim, o menino do trem me fez acreditar que por sete temporadas havia assistido a uma realidade. Ou, eu que vivi uma ficção de um minuto.

​ Eu parei de pensar


​Nos relacionamos pela segunda vez e eu evitei pensar. A cada encontro, perdia meus pontos de interrogações e os substituía por meras vírgulas mal distribuídas. Não me importei mais com as dúvidas que tinha sobre você, ou sobre qualquer outra coisa. Durante os meses que insistimos nesse erro, não percebi o senso crítico que me faltava.

Deixei de refletir nos momentos antes de cair no sono e abandonei os assuntos que, às vezes, afastavam este mesmo sono durante a noite. Minha insônia acabou por girar em torno de preocupações supérfluas, como qual chocolate eu compraria na próxima TPM.

Ignorei os sinais escancarados de que só ficaríamos juntos caso um dos dois tivesse amnésia e mudasse totalmente de personalidade. Ignorei, porque carreguei em mim a fantasia de nós dois por tempo demais, ainda que às vezes adormecida por outros amores e paixões.

Quando voltei a pensar, pensei até demais, pensei tanto que apenas deixei de gostar, porque nunca gostei de você, pelo menos não o você da segunda vez.

Um encontro embrulhado


Meu estômago estava embrulhado como um papel de presente esquecido por três anos. Ele estava ao meu lado, preocupado, ainda que fosse só uma ressaca. Soube porque me olhava com os olhos atentos e sobrancelhas levantadas, como quem quer ser levado a sério. “Vai te fazer mal não comer nada”, ele disse.

A cada passo que dávamos, eu respirava fundo e tentava afastar a ânsia pela força do pensamento. Massageava minha testa com a ponta dos dedos, não porque acho que tenho poderes telepáticos (caso ele tenha pensado isso), mas porque também estava com dores fortes de cabeça. “Nunca mais vou beber”, eu disse.

Era nosso primeiro encontro desde o dia que nos conhecemos, dois meses atrás. Nos enrolamos em mensagens despreocupadas e problemas técnicos. 61 dias depois e ele estava lá, dividindo o fone de ouvido e fingindo gostar da minha seleção de músicas indie pop enquanto esperávamos o próximo trem. “Você tem bom gosto”, ele disse.

Em vez de ser a garota com borboletas no estômago, fui a garota com embrulhos no estômago. Culpei o balanço do metrô e escondi minha decepção comigo mesma. Ainda assim, não mudaria os minutos que observamos a Avenida pelo mirante até eu precisar sentar e os que rimos em silêncio da senhorinha perdida na videoinstalação da exposição. “Será melhor na próxima”, eu disse.

Amor de verão


Te conheci por volta das seis horas da tarde. Tu percebeu do outro banco da praça que eu não era dali e veio me perguntar se havia gostado da cidade até então. Confesso, achei que tu fosse mais um maluco que vendia pão de mel por dois reais e cinquenta centavos. O preço dessa capital com cara de interior era bom, mas já estava cansada de dizer "não" às pessoas que me abordavam. Apesar do estresse, cedi aos teus olhos azuis tão claros que quase se fundiam com o branco do tua esclera. Te disse que sim, havia amado o lugar, e completei te comparando a um cantor pop tão fofo quanto tu mas que me irrita com seu rosto perfeito demais.

Tu me disse teu nome, aquele que temi por tanto tempo, carregado de histórias de outro alguém. A diferença de uma letra entre os dois me trouxe alívio, por mais que não acredite em numerologia e que não faça diferença na hora de chamar. Acreditei, no fundo, que tu não era ele, porque teu sotaque era caipira e puxado demais. Outras coincidências apareceram e rimos delas, como se fossem uma pegadinha de um reality show qualquer de encontros de casais ideais. Tu sabe que é só por uma noite, mas eu ignoro o bilhete de embarque dobrado na parte da frente da mochila.

As luzes da festa a seguir me fizeram viajar no teu mundo. Eu não gostava de nenhuma daquelas músicas bregas e ainda assim cantava cada letra guardada - a maioria estava errada mas não me importei -. Gritamos para perguntar e responder questões bobas como "mora só você e sua mãe?", que no momento eram importantes demais para duas pessoas que só tinham um final de tarde e uma noite.

Duas horas de convivência, tu já fazia cócegas em mim e eu ria sem graça mas sem me preocupar com a risada desengonçada. Parecíamos a dupla com mais sintonia da região toda, e nem sabia qual era tua comida preferida. Até hoje imagino que seja purê de batata. Tu tem cara de quem gosta de purê. E de ser uma daquelas pessoas que só conseguem pegar no sono ao lado de outra, se tiver de concha, bem próximo.

O vento da madrugada das cinco da manhã, na barraca do cachorro-quente, era áspero e podia senti-lo rachar meus lábios logo menos. Mas tu me aqueceu com teu fogo da efemeridade, tu quis aproveitar de cada segundo dessas poucas horas. Mesmo no inverno de uma cidade gelada, tu e eu vivemos um amor de verão. Não sei se amor é a palavra certa, mas as duas juntas combinam e fazem sentido. Foi como tomar sorvete no inverno. Um sorvete saboroso, mas que tu percebe o gosto saindo por debaixo da língua em poucos minutos.

Aconteceu por um motivo?


​Desde pequenos nos dizem que as coisas acontecem por um motivo. Não deu certo com aquele namorado ou caiu e quebrou os dentes da boca? Não se desespere, afinal, tudo acontece por uma razão incompreensível para nós humanos. Mesmo que não faça ideia do que tenha feito de errado, mesmo que tenha se esforçado para ser um bom companheiro, tenha dado seu melhor e olhado por onde anda, as coisas não deram certo e você só precisa aceitar.

Porque não é um motivo, são muitos. Ou, ainda, nenhum. E tentar descobrir todos eles (ou a falta dos mesmos) te deixará louco. Você tentou e não foi suficiente. Para aquela pessoa ou pessoas, não para o mundo. Talvez alguém não tenha aprendido a lidar com suas manias de limpeza e sua falta de humor, mas quer saber? Outro ser em algum lugar desse mundão aprenderá, então não perca seu tempo tentando ser algo que não é para conquistar alguém que talvez, simplesmente, não seja uma peça que encaixe no seu quebra-cabeças.

Pode ser que a sola do sapato que usava quando caiu estivesse gasta, mas nem por isso desista de olhar para os inúmeros buracos ao longo da rua. Alguns deles você conseguirá evitar e outros não, mas tudo bem, porque você tentou. E dane-se os motivos, sejam quantos forem e quais forem. Não enlouqueça por isso, porque você nunca será perfeito para o mundo inteiro. Seja bom o suficiente para aquela pessoa com remela no olho e sorriso amarelo que você vê toda a manhã quando se vira para o espelho no momento de escovar os dentes.